O autor da escultura “Foda dos Nus” é Custódio Almeida, um autodidacta, natural de São Cristóvão de Lafões.

De vez em quando, lá se ergue do chão uma daquelas variantes filosóficas do ovo e da galinha, para agitar a subjectividade colectiva com a perspectiva pessoal. É assim na arte, assim é na vida. Há coisas que ao princípio se estranham e depois se entranham na paisagem do olhar. Outras, nem que a vaca tussa. A mais recente polémica estalou numa vila de São Pedro do Sul. De norte a sul, com artistas desconhecidos ou consagrados, Portugal é fértil nestas questões. Às vezes, as obras passam a ‘ex libris’. Noutras, ficam polémicas de estimação..

Estavam tão sossegados os habitantes da freguesia de Santa Cruz da Trapa, concelho de São Pedro do Sul, distrito de Viseu. É raro não encontrar alusão a um santo ou motivação religiosa na toponímia circundante a Santa Cruz da Trapa. Trapa, aliás, nasceu como uma pequena comunidade cristã a pregar num sítio deserto. A sua história está associada ao mosteiro de Trapa (a escassos quilómetros da vila), destruído pelos muçulmanos no ano de 920, e reconstruído nos alvores do século XII. Talvez isso explique, a nascente ou a poente, o choque civilizacional que causaram os nove metros de altura e as 60 toneladas de um acto sexual, como priapismo antropomórfico na linha perpétua do horizonte. Neste caso específico, nem vale a pena esgrimir ocultos significados à obra, que é de explicitude impactante, elucidativa desde a ponte fálica que une a parelha escultórica da obra, até ao seu título: “Foda dos Nus”. Nada que a Humanidade não tenha feito, até vestida, quanto mais não fosse para assegurar a sobrevivência da espécie.

A obra não é discreta. E também não era esse o objectivo de Custódio Almeida, o autor, autodidacta, natural de São Cristóvão de Lafões, não muito distante do local onde a obra se encontra exposta, a servir de anfitriã ao espaço Arte Dança Nua, seis hectares de território expositivo, em tudo apropriado ao estilo e à dimensão das peças deste artista autóctone, cujo objecto de trabalho se move num verdadeiro poço sem fundo: o universo feminino. Foi, no entanto, o universo trapense que engoliu em seco quando a escultura foi inaugurada, em Maio passado. Desde aí, não se fala noutra coisa.

A população de Santa Cruz da Trapa, e a população global em que as populações como as de Santa Cruz da Trapa se tornam nas redes sociais, hiperbolizou o que já estava hiperbolizado à nascença. A discussão instalou-se e lá veio o abaixo-assinado da praxe para que se proceda à imediata remoção da polémica escultura do espaço público, o que nem sequer está em equação. O choque não chocou o artista, assim como não o surpreendeu. O facto da polémica ter passado de local a regional e desta a nacional enche-o de satisfação, pois o objectivo era precisamente este: “romper preconceitos e quebrar tabus em relação à nudez e à sexualidade”. Nesta temática, afirma o artista, “a sociedade portuguesa ainda está um bocadinho fechada”. O consenso retira da arte a sua função primeira. Não será o artista a questionar as opiniões que lhe têm chegado em catadupa. A crítica está para arte como os cães para as caravanas. O seu desiderato, enquanto artista, é só um: “criar obras que choquem a sociedade”. Esta obra consumiu dois anos de trabalho, mas cumpriu amplamente esse objectivo. Pensando bem, até o extravazou.

Aos microfones da RTP, Custódio Almeida ainda tentou sossegar o regimento de detratores locais e todos aqueles que a estes se juntaram à causa nas colunas facebookianas, dizendo que a obra tem um ‘je ne sais quoi’ autobiográfico. “É um pouco a minha pessoa, é a minha metamorfose, onde retrato a minha personagem nu”. Generalizando: “É um pouco o mundo, o quebrar pedra, para que as pessoas sejam mais libertas”. Os de Santa Cruz da Trapa, que têm de aprender a viver com esta escultura, não se dão por satisfeitos com as explanações filosóficas do autor, sugerindo-lhe que operasse as suas metamorfoses em casa e não as colocasse à vista de todos. Em Santa Cruz da Trapa, as opiniões dividem-se, mas em grande desproporcionalidade para os que querem retirar a escultura do seu lugar. O tempo cura tudo, relembra o artista. O que muitos consideram uma ferida na paisagem, um dia destes torna-se ‘ex libris‘ e não se fala mais nisso.

Luís Pedro Cabral – Contacto_ Luxemburgo

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